Durante um passeio em família, eu, minha mãe, minha vó e minha tia, paramos em um estacionamento qualquer para comer um lanche que havíamos acabado de comprar.
Era um início de noite, entre 18 e 19h, quando uma mulher de estatura baixa e cabelos curtos e cacheados, trajando uma justa blusa vermelha, se aproxima da janela da parte de trás, onde eu estava com minha tia.
A mulher simulou uma arma com as mãos e apontou para minha tia, exigindo um cartão de crédito ou débito e nada mais. Com medo de que houvesse comparsas ao redor, ou que ela tivesse alguma arma escondida, minha mãe cedeu. Logo a mulher exigiu que a levássemos em algum lugar.
Parecia nervosa, ansiosa. Nos conduziu até um local no meio do nada, como uma fazenda, repleto de matos e árvores. Havia uma casa bem grande, parecia uma mansão.
Descemos do carro e fomos convidadas para entrar, com o pânico estampado em nossos rostos.
Na área da casa havia uma pia dupla, uma mesa grande e uma panela. Assemelhava-se à uma sala de jantar ou à um refeitório ao ar livre, com pisos brancos como a neve.
A mulher com um leve sorriso no rosto disse:
-Fui eu quem limpou tudo isso, estava muito sujo
Minha mãe, tentando parecer simpática, replicou:
-Nossa, deve ter dado muito trabalho. É bem grande aqui.
Quando entramos na casa, me surpreendi. Parecia um lugar luxuoso, bem iluminado e de cores claras.
Ela começou a nos apresentar cada cômodo de sua casa de dois andares. Porém deu atenção especial à um pequeno quarto de menino.
-Esse é o quarto do meu filho. -Disse a mulher.
Era o menor cômodo, porém o mais bem cuidado e arrumado. Fiquei me perguntando onde estaria seu filho e a que horas apareceria, o que me deixou um pouco mais tensa.
A tal mulher conversava conosco como se fôssemos grandes amigas, inclusive insistiu para que jantássemos com ela. Não parecia que acabara de nos furtar. Aliás, o que me incomodou no meio de todo aquele luxo foi pensar sobre isso. Eram frutos de roubos anteriores.
Finalmente ela nos serviu, arroz e carne com batata e, devo admitir que cozinhava extremamente bem!
Após a refeição, começou a falar sobre o lugar.
-Aqui, há algum tempo atrás foi um hospital, onde perdi meu bebê. Era um menino... Um lindo menino. Criei um ódio inexplicável daqui, mas ao mesmo tempo é o único lugar que faz-me sentir próxima dele.
Ficamos todas em silêncio. Comecei a pensar o que fizera com que o deixara de ser, e logo entendi também que aquele quarto fora feito para seu falecido menino. Fui conduzida novamente ao quarto de seu filho. Ela me mostrava cada detalhe. Era realmente cuidadosa, porém claramente com problemas psicológicos.
Ficamos lá até o amanhecer, e finalmente nos despedimos.
Ela acenava e sorria como se tivéssemos uma grande proximidade.
-Tchau, se cuidem no caminho. Por favor, voltem sempre. Sempre serão recebidas de braços abertos.
Nenhuma de nós se atreveu a perguntar seu nome, e ela tampouco nos disse.
Até hoje não sei quem era essa mulher, nunca mais a vi novamente, e espero não ver.

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