segunda-feira, 30 de março de 2015

(Contos) O intruso

 Era uma noite comum como as outras, fria e com o céu coberto pelas nuvens como se fossem um manto da mais pura seda.
Já passava das 23h, portanto minha mãe entrou em nossa simples casa, e logo eu a segui. Parei por um instante em uma pequena sala que havia, como uma espécie de corredor, e fiquei a observar um velho retrato de meu pai. Diversos pensamentos passavam por minha mente. O que teria acontecido? Onde estava? Aquele garoto ao seu lado seria meu irmão? Minha memória estava turva por acontecimentos passados.
 Logo adentrei o local, mas antes que pudesse fechar a porta, escutei passos. Passos discretos, porém pesados. O tempo permitiu-me apenas esconder-me brevemente atrás da porta da sala que estava entreaberta.
 Logo pude ver sua silhueta. Era um homem de estatura média, porém robusto. Carregava o que parecia ser uma espingarda, o que veio a confirmar-se mais tarde.
  Ele chamava em tom de ironia e ameaça:
 -Catarina. Onde está você Catarina?
 Entendi que era minha mãe, mas algo em minha mente ainda não compreendia. Minha mãe não se chamava Catarina, e sim Laila. Mas no fundo eu sabia, sabia que algo já ocorrera ali num passado distante, nossa história estava se repetindo como um flash em tempo real. Eu sabia o objetivo desse homem, sabia quem era a tal Catarina a quem se referia.
 Não tardou a encontrar-me, segurando-me pela gola da camiseta que eu trajava. Tinha uma força bruta.
 -Catarina, já encontrei sua filha, Catarina. Só falta você. Eu vou encontrá-la.
 A voz desse homem era perturbadora, mais que o normal em uma situação dessa. Eu sabia que queria enterrar-nos vivas, apesar da espingarda que carregava consigo.
 Minha vista escureceu  ao eco de sua voz que ainda me atormenta, senti meu corpo pesado, não me recordo de nada mais. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário